terça-feira, 7 de novembro de 2017

Aliança ou Testamento?


“Semelhantemente, depois de cear, tomou o cálice e disse: Este é o cálice do novo testamento no meu sangue derramado em favor de vós”. Lucas 22: 20.


Havia duas palavras na língua grega que expressavam a idéia de acordo entre partes, "suntheke" e "diatheke". Contudo, cada uma continha um conceito diferente de acordo. "Suntheke" era usada para indicar um acordo entre partes iguais, isto é, contratos em que as partes costuravam juntas, cada qual contribuía com sugestões que seriam incorporadas ao contrato. Usada para casamentos, acordos comerciais entre indivíduos ou acordos de paz entre Estados. No conceito de suntheke estava incluso a idéia de igualdade. A encontramos na versão grega do Velho Testamento em Josué 9: 6, que descreve a aliança entre Israel e os Gibeonitas; Juízes 2: 2, que descreve alianças entre os habitantes de Canaã e Israel e 1º Samuel 23: 18, que descreve aliança entre Davi e Jônatas.Diatheke, por sua vez, indicava um acordo em que uma parte determinava sozinha as cláusulas do contrato, essa parte determinante assumia uma posição de superioridade sobre a outra que deveria apenas aceitar ou rejeitar, não poderia jamais alterar um item sequer. No Velho Testamento foi utilizada em Gênesis 9: 12 para descrever a aliança entre Deus e Noé; em Gênesis 17: 4, para descrever a aliança de Deus com Abraão e em Deuteronômio 4: 13, para descrever a aliança de Deus com Israel.
Diante disso, ao analisarmos a palavra utilizada por Lucas no versículo acima, descobrimos que ele utiliza diatheke, não somente ele, mas também Mateus (26: 28), Marcos (14: 24), Paulo (Romanos 9: 4) e o escritor aos Hebreus (7: 22; 8: 6, 9, 10; 12: 24; 13: 20), todos eles usam-na para descrever o acordo estabelecido por Deus aos homens. Cuja idéia principal estabelece a superioridade de Deus sobre os homens.
Ao pesquisarmos na nossa cultura e idioma uma palavra que trouxesse o conceito de acordo entre partes que não estão numa posição igualitária, vamos encontrar TESTAMENTO. Testamento é um acordo estabelecido por uma parte, o testador, que assumi uma posição de superioridade, que por si só e por sua inteira vontade, estabelece os itens desse acordo, não cabe a outra parte nenhuma participação, alteração ou imposição sobre ele, mas somente aceitar ou rejeitar.
A partir daí, é nos apresentado todo o conceito da salvação oferecida por Deus através de Jesus Cristo. Visto que Deus estabeleceu uma grande salvação, na qual é oferecido ao homem um acordo segundo a vontade de Deus. Todas as cláusulas desse acordo são apresentadas por Deus no Evangelho. A parte do homem consiste em: Reconhecimento de sua condenação por causa de seus pecados; Arrependimento deles todos; Fé em Cristo que morreu como substituto por nós, levando sobre si todos os nossos pecados; Aceitação incondicional do senhorio de Cristo sobre sua vida, ou seja, tomar sobre si o Seu julgo. A Deus cabe: Conceder ao homem vida eterna; Transformá-lo mediante a presença incondicional do Espírito Santo na sua vida; Dar-lhe vitória sobre o pecado e conceder-lhe paz com Deus. Tudo isso já foi estabelecido por Deus, o homem não pode alterar nenhuma das promessas estabelecidas, nem acrescentar, nem extrair. Somente aceitar ou rejeitar.
A idéia de testamento é ainda mais fortalecida pela morte do testador, Cristo. “Porque onde há testamento é necessário que intervenha a morte do testador; pois um testamento só é confirmado no caso de mortos; visto que de maneira nenhuma tem força de lei enquanto vive o testador” (Hebreus 9: 16, 17). Isso significa que Deus tomou a iniciativa, por sua riqueza em graça, de oferecer uma salvação ao homem que não tinha nenhum direito e que não merecia nada.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

CABECA PRA CIMA - CURIOSIDADES BÍBLICAS 2

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sermão da Montanha (II)

(a partir de Mateus)

A missão dos discípulos 5.13-16

(Mc. 9.49-50; 4.21; Lc. 14. 34-35; 8.16)

5.13-16 – Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.

Há uma relativa mudança de foco, enquanto nas bem-aventuranças há uma ênfase sobre as exigências para os súditos do reino em relação a Deus, aos homens e a sua condição neste mundo; aqui, se apresenta a responsabilidade dos discípulos diante do mundo através das boas obras.

Mateus é o único que insere essa exortação no sermão da montanha, apesar de estranha ao tema, ele faz uma re-leitura para acentuar as boas obras.

Tanto em Marcos quanto na fonte Q, o valor proverbial do sal é a prudência e a sua ausência é a estupidez (Barbaglio, 2002), assim também quem acende uma lamparina e põe debaixo do móvel evidencia uma estupidez. É provável que fosse esse o sentido primário dessas palavras.

Ao introduzir a figura da cidade edificada sobre a montanha, Mateus aponta para a dificuldade de se esconder a Palavra de Deus nos corações sem que esta se mostre àqueles ao redor através das boas obras. A cidade sobre o monte como fonte da Palavra de Deus pode ser vista em Is. 2.2-3 e 60.1-3.

A imagem da luz como sendo o Senhor Jesus aparece em Is. 42.6 e 49.6. Isto é ratificado por João no quarto evangelho, onde Jesus é apresentado como luz do mundo (Jo.8.12; 9.5).

As boas obras apontadas por Mateus não se referem às práticas religiosas ou ascéticas[1], mas às ações concretas que se refletem no próximo, principalmente nos inimigos (5.44-45).

Esta palavra de Mateus nos mostra uma comunidade cansada e inativa, que precisava ser sacudida com “ameaça” de juízo e racionalização: “se o sal tornar-se insípido... pisado pelos homens” ou “não se acende uma lâmpada para se colocar embaixo do móvel...”.

A nova interpretação da lei 5. 17-48

(Lc. 6. 27-30, 32-36; 16.17)

Não podemos ignorar que Paulo também fará uma nova interpretação da lei (Rm.3.31; 7), mas isso ficará para mais adiante.

A mensagem principal dessa seção é “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (v.48).

A função da lei 5. 17-20

5.17-20 – Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til[2] jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça[3] não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.

Após as exortações das bem-aventuranças e o apontamento da missão dos discípulos em relação às boas obras, Mateus chega ao ponto central do discurso, a nova interpretação da lei. Sua comunidade de judeu-cristãos tinha uma forte ligação com a lei e fica evidente o debate entre anular a lei ou segui-la nos pormenores. Além do mais, existia uma forte oposição dos rabinos da sinagoga e dos fariseus sobre a observância literal da lei contra a posição mais liberal dos judeus helenistas, que enfatizavam o “espírito” da lei. Essa controvérsia provavelmente foi trazida para a comunidade cristã. Por isso, era preciso esclarecer até que ponto a lei de Moisés deveria ainda reger as vidas dos cristãos, visto ser ela a revelação de Deus no Sinai.

Para Mateus, a lei não foi anulada e sim reinterpretada de forma definitiva pelo Senhor. Nele, ela foi plenamente cumprida (3.15; 9.13; 12.12). Assim, Mateus tenta conciliar a continuidade e a ruptura, enfatizando que a prática da lei deve exceder à dos mestres e fariseus e que por outro lado sua prática não abre a porta para o reino dos céus (19. 16-21).

Da fonte Q provém o v.18, da qual também Lucas compartilha (Lc. 16.17).

Não matarás 5. 21-26

(Lc. 12. 58-59)

5.21-26 - Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz, ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo.

O sexto mandamento do decálogo, “Não matarás” (Ex. 20.13 e Dt. 5.17), é ampliado para abarcar a fúria, o xingamento e o ódio.

Os três níveis de julgamento eram normalmente indicados para o assassinato, Jesus os utiliza para a ira: tribunal local, Sinédrio e o geena de fogo.

O perdão é um tema recorrente em Mateus (vs.24-25; 18.21-22,35). A expressão “ao trazeres ao altar a tua oferta” indica que os cristãos ainda freqüentavam o Templo e participavam dos ritos (At. 21. 23-26).

Há uma dupla exortação: 1ª - o temor ao tribunal humano: matar, irar e insultar; 2ª - o temor ao tribunal divino: as ações já mencionadas mais o xingamento. Assim como o acordo evitaria o tribunal humano, assim também o divino poderia ser evitado com a reconciliação.

Lucas apresenta os vs. 25 e 26 (Lc. 12. 35-59) num sentido escatológico, exortando os cristãos a uma urgente reconciliação.

Não adulterarás 5. 27-32

(18. 8-9; 19. 3-9; Mc. 9. 43-48; 10. 2-12; Lc. 16. 18)

5.27-32 - Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno. Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.

No decálogo, proibia-se o adultério (Ex. 20.14; Dt. 5.18), mas também o desejo de possuir a mulher do próximo (Ex. 20.17; Dt. 5.21). Jesus os coloca no mesmo nível. Num contexto cultural em que a mulher sempre era vista com acepção e sempre punida pelo adultério, Jesus apresenta um mandamento exclusivamente masculino.

Tanto Mateus quanto Marcos utilizaram os vs. 29 e 30 num outro contexto, em que aplicaram aos crentes que fizessem tropeçar um novo convertido ou um irmão fraco na fé (18. 8-9; Mc. 9. 43-48).

Um acento sapiencial é marcado nos vs. 29 e 30: “vale a pena sacrificar um bem precioso, mas parcial, para preservar o bem total”. (Barbaglio, 2002). O objetivo final é a salvação.

O divórcio foi regulamentado pela lei (Dt. 24. 1-4); visto que a lei era bastante “frouxa” em relação ao divórcio, o abuso era evidente. Por isso, Mateus estabelece um único critério para o divórcio (5.32; 19.9); Marcos e Lucas ignoram esse critério (Mc. 10.11-12; Lc. 16.18), Paulo também (1Co. 7.10-11).

Não jurarás falso 5. 33-37

5.33-37 - Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.

A proibição contra o falso juramento ou voto na lei encontra-se em Lv. 19.12; Nm. 30.2 e Dt. 23.21. O primeiro pode estar sendo referido ao relacionamento social, mas os outros dois apontam claramente para as relações entre o homem e Deus. Além do decálogo que proíbe a pronuncia do nome de Deus em vão (Ex. 20.7; Dt. 5.34).

Nenhum ser humano tem o controle sobre o céu, a terra, Jerusalém ou até mesmo sobre si para oferecer como garantia. Jesus ensina seus discípulos o falar sincero e franco.

O uso de juramentos era evidentemente uma prática bastante comum e já desacreditada.

“Olho por olho, dente por dente” 5. 38-42

(Lc. 6. 29-30)

5.38-42 - Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

A lei veterotestamentária do Talião (Ex. 21. 23-25; Lv. 24. 19-20; Dt. 19.21) é também estendida até a anulação. O propósito dessa lei era manter um equilíbrio entre o dano e a punição, refreando a vingança e impedindo a violência.

O Senhor Jesus ensina seus discípulos a abrirem mão da retaliação permitida pela lei. Ele apresenta quatro exemplos de comportamentos aceitos socialmente e instintivos na resistência ao perverso: “bateu-levou”; “o que é meu ninguém leva”; “só vou onde quero” e “emprestar, nem pensar”. Os quais devem ser feitos o oposto.

Amarás ao próximo 5. 43-48

(Lc. 6. 27-28,32-36)

5.43-48 - Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Este ensino resulta de algumas suposições feitas pelos judeus na interpretação da lei: 1ª o meu próximo é meu compatriota; 2ª o meu inimigo não é o meu próximo, logo não preciso amá-lo. A discussão sobre quem é o próximo fica evidente na pergunta do interprete da lei a Jesus (Lc. 10.29).

Jesus ensina o amor a todos, não somente aos membros do grupo nacional e familiar, mas até mesmo aos inimigos. Os inimigos são também os perseguidores. Mateus já prepara sua comunidade para evangelização das nações.

As exigências do amor buscam referência em Deus, em seu exemplo (v.45). O filho deve ser semelhante ao pai.

A expressão “Sede vós perfeitos” tem valor cultual, pois faz referência ao sacrifício oferecido no VT (Rm. 12.1).



[1] Devoto, místico; contemplativo.

[2] Sinal gráfico.

[3] A prática da lei.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Sermão da Montanha (I)

(a partir de Mateus)

Mateus estabeleceu uma estrutura diferente de Lucas. Este apresenta quatro bem-aventuranças (Mt. oito), quatro “ais” (Mt. os põe em número de sete no c.23.13-29), Lucas fala apenas da vingança, do amor ao próximo, do juízo temerário e apresenta três parábolas: cego que guia outro, a árvore e seus frutos (Mt. põe no c.12.33-37) e os dois fundamentos.
A única fonte extraída de Marcos para o sermão da montanha de Mateus foi o 5.13 (Mc. 9.49-50 que faz uma alusão a Lv. 2.13; Ez. 43.24).

A estrutura se apresenta da seguinte forma:

•Introdução: 5.1-2;
•As bem-aventuranças: 5. 3-12;
•A missão dos discípulos: 5. 13-16;
•A nova interpretação da Lei: 5. 17-48;
•O verdadeiro valor do comportamento religioso: 6. 1-18;
•O viver sereno e confiante: 6. 19-34;
•Três exortações e uma máxima (v.12): 7. 1-12;
•A prática da palavra de Cristo: 7. 13-27;
•A reação da multidão: 7. 28-29.

Introdução: 5.1-2 (Lc. 6.20)
A visão panorâmica: dois círculos de ouvintes, a multidão atrás e os discípulos próximos; o monte donde desce a palavra; a atitude de Jesus e a qualificação da palavra de Jesus como ensinamento.

5.1 - Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos;

As multidões no segundo plano são os ouvintes que ficarão maravilhados, elas constituem os potenciais discípulos, as quais a igreja deve levar os ensinamentos de Cristo (28.19-20).
O monte não tem um valor topográfico. Significa o lugar da revelação divina. Outrora, para os israelitas, em Moisés, fora o Sinai (n.r.:BARBAGLIO, FABRIS e MAGGIONI. Os Evangelhos (I). Edições Loyola. São Paulo, 2ª ed. 2002. p. 109); para Ló, o lugar de refúgio (Gn. 19.17); para Abraão, o lugar da provação (Gn. 22.2); foi num monte que foi construído o templo (2Cr. 3.1). Lucas situa este sermão na planície (Lc. 6.17). Jesus fala sentado, esta é a posição do mestre e a sua palavra possui um tom de autoridade.

5.2 - e ele passou a ensiná-los, dizendo:

Mateus qualifica a fala de Jesus como ensinamento para indicar a interpretação da palavra normativa de Deus contida no AT. Cristo é seu intérprete autorizado.

As bem-aventuranças 5. 3-12 (Lc. 6. 20-23)
O texto é artístico, composto por duas estrofes, cada uma com quatro bem-aventuranças (3-6, 7-10). A promessa do Reino aparece no início da primeira estrofe e no fim da segunda. “Justiça” significa o cumprimento da vontade de Deus. A nona bem-aventurança (vs.11-12) se liga a oitava no que se refere aos “perseguidos”; contudo, ela se apresenta à parte como desenvolvimento da oitava. Há também uma alteração em Mateus em relação a Lucas, Mateus usa a terceira pessoa para dar um tom universal (com exceção da nona bem-aventurança), enquanto Lucas as apresenta em segunda pessoa.
Outra diferença importante: em Lucas as bem-aventuranças são mais objetivas: pobreza, fome, lágrimas e perseguições, falando às necessidades imediatas dos ouvintes; enquanto Mateus as espiritualizou, enfatizando os aspectos morais dos ouvintes. Em Mateus, Jesus felicita aqueles que querem ter um relacionamento com Deus e com o próximo. Veja o esquema Mateus / Lucas:

• Pobre de espírito / pobre;
• Choram - consolados / choram - riem;
• Fome e sede de justiça / fome;
• Perseguidos por causa da justiça / perseguidos;
• Manso – terra futura;
• Misericórdia – misericórdia futura;
• Limpos de coração;
• Pacificadores – futuros filhos de Deus.

O gênero literário das bem-aventuranças não é novo, também se pode encontrá-lo no AT, p. ex. Sl.1.1-2 felicita os fiéis seguidores da lei de Deus. Em Mateus, as bem-aventuranças têm um cunho escatológico como em Dn. 12.12.
As Bem-Aventuranças, entre os versos 3 e 10, tem uma estrutura com três acentos, ligados pelos verbos.

Primeiro Acento: a Felicidade;
Segundo Acento: as Exigências;
Terceiro Acento: a Promessa.

V.3 - Bem-Aventurados / os pobres de espírito / deles é o Reino dos Céus.
V.4 - Bem-Aventurados / os que choram / serão consolados.
V.5 - Bem-Aventurados / os mansos / herdarão a terra.
V.6 - Bem-Aventurados / os que têm fome e sede de justiça / serão fartos.
V.7 - Bem-Aventurados / os misericordiosos / alcançarão misericórdia.
V.8 - Bem-Aventurados / os limpos de coração / verão a Deus.
V.9 - Bem-Aventurados / os pacificadores / serão chamados filhos de Deus.
V.10 - Bem-Aventurados / os que sofrem perseguição por causa da justiça / deles é o Reino dos Céus.

Em cada acento ou destaque, há uma área importante, que define a personalidade do discípulo de Jesus.

Observação: há a ligação entre os versos pelos verbos: 3-10 (presente) / 4-9 (futuro passivo) / 5-8 (futuro ativo) / 6-7 (futuro passivo). O nome disto é “ESTRUTURA QUIÁSTICA” . (Fonte: Kibuuka, Brian. O tríplice ministério de Jesus. Apostila).

V.3 - “A primeira bem-aventurança é para os humildes, isto é, para aqueles que se apresentam com as mãos vazias diante de Deus” (Barbaglio, 2002, p.113). A palavra grega (ptochós) expressa uma pobreza absoluta, usada para aquele que dependia totalmente do favor alheio. É evidente a espiritualização de Mateus em relação a Lucas 6.20.

V.4 - A segunda bem-aventurança fala àqueles que estão em aflição, a promessa é o consolo. Provavelmente Mateus tinha em mente Is. 61.1-2, diferentemente de Lucas que fala do riso, numa perspectiva menos espiritual e mais objetiva (6.21b).

V.5 - Uma vez que Mateus traz em seu evangelho um número significativo de passagens do VT, há uma grande probabilidade dele estar citando o Sl. 37.11. Não há dúvida que esta bem-aventurança se refere às relações humanas, do qual Cristo é nosso modelo (11.29). Também podemos considerar Zc. 9.9 citado em 21.5. Em princípio, a terra se refere à terra de Canaã concedida pelo Senhor a Israel, já em Is. 66.22 fala-se num sentido escatológico para indicar os novos céus e a nova terra.

V.6 - A quarta bem-aventurança também se pode observar a espiritualização de Mateus em relação a Lucas 6.21a. O faminto de Mateus é aquele que anseia realizar a vontade de Deus, que não se conforma com a injustiça ao seu redor. A promessa futura é a plena satisfação.

V.7 - A misericórdia em Mateus é operosa e concreta e não um mero sentimento de compaixão. Para Mateus a misericórdia tem mãos, ela realiza (18.33; 25.35-37); também traz a idéia de perdão e recomeço (6.12,14-15).

V.8 - A linguagem da sexta bem-aventurança traz aspectos relacionados ao culto. Para o israelita se aproximar do templo e prestar seu culto era necessário que fizesse as purificações rituais; contudo, logo se observará que somente isso não era suficiente. A pureza necessária é muito mais moral do que ritual (Barbaglio, 2002), assim, Mateus alude ao Sl. 24.3-4 em que apenas os limpos de coração verão a Deus.

V.9 - Outro salmo oferece o motivo da sétima bem-aventurança: “Procura a paz e segue os seus passos” (34.14). Considerando que Mateus dirige seu evangelho a uma comunidade cristã, a referência à paz se aplica imediatamente às relações entre os irmãos e posteriormente às relações entre todos. Aqueles que se esforçam para promover a paz são parecidos com Deus.

Vs.10-12 - A oitava bem-aventurança traz a promessa da primeira (o reino dos céus) para aqueles que obedecem à vontade de Deus (justiça) e por conseqüência disso, são perseguidos.
A perseguição era bastante forte nos primeiros dias da igreja, por isso esta bem-aventurança recebe um desenvolvimento mais detalhado. No desenvolvimento, Mateus mudará o tratamento universal expresso em terceira pessoa para segunda pessoa num tratamento mais direcionado à comunidade. Mateus precisava lembrá-los que os sofrimentos decorrentes da fé em Jesus trariam uma recompensa nos céus e que tais sofrimentos deveriam levá-los ao regozijo por saber que Deus preparou algo superior. Mateus procura lembrá-los da história dos profetas, os quais também foram perseguidos e muitos foram mortos por sua fidelidade ao Senhor. É provável que Mateus tenha desenvolvido essa última bem-aventurança a partir das palavras de Jesus registradas por ele mesmo em 10.16-39. Também se pode considerar, a partir de outros textos, que a bem-aventurança para os perseguidos por causa de Cristo fazia parte de um ensino bastante difundido na igreja primitiva (1Pe. 4.13-16), cujo objetivo era trazer conforto e esperança.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A Parábola da Lamparina

“Ninguém esconde uma lamparina num móvel, depois de tê-la acendido ou a põe debaixo da cama, mas a põe sobre o candelabro, para que os que entram vejam a luz”. Lucas 8: 16. (Tradução do autor).


A parábola da lamparina tem o mesmo propósito da parábola do semeador, visto que Lucas, seguindo Marcos, as coloca lado a lado, dentro de uma mesma temática. Jesus havia tido um encontro com uma mulher na casa de um Simão fariseu. Nesse encontro, Jesus mostrou aos presentes que a Palavra de Deus deve ser anunciada a todas as pessoas indiscriminadamente, isto é, até para uma mulher com fama de pecadora. Com o episódio, pode-se aprender que das pessoas mais improváveis, Jesus pode receber um louvor inigualável.
Simão, o anfitrião, deveria ter honrado seu hóspede segundo a etiqueta da época, isto significaria tê-lo recebido com uma saudação calorosa (beijos), água para a lavagem dos pés e das mãos (rito religioso de purificação, chamado pelos judeus de batismo, Marcos 7:4) e perfume para unção (não se refere a rito religioso). No entanto, nada disso foi feito, mas repentinamente (dificilmente uma surpresa para Simão), uma mulher de má fama entra na casa e sem ser impedida, aproxima-se de Jesus e o toca, chorando e beijando seus pés, passa-lhe perfume. Jesus passivamente assiste toda a cena, provavelmente sabia do “plano”, e então conta uma pequena parábola e em seguida pergunta a Simão: quem ama mais? Quem teve uma dívida pequena perdoada ou aquele que teve uma dívida grande perdoada? Simão responde que quem amará mais é aquele que teve a maior dívida perdoada (7: 41-43). Jesus ainda falando a Simão a respeito da mulher, diz: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou.
Em seguida Lucas seleciona duas parábolas que procuram mostrar a importância de se anunciar a Palavra de Deus a todas as pessoas sem procurar avaliar quem seria digno ou não de ouvi-la. O semeador que lança a semente indiscriminadamente em terras que não são suas e a lamparina que deve estar em lugar visível para que possa iluminar a todos que se aproximam.
Assim, pode-se concluir que as parábolas do semeador e da lamparina são ilustrações inseridas num discurso em que a temática é a pregação da Palavra de Deus a todas as pessoas. Esse discurso é apresentado no episódio em que Jesus visita Simão, o fariseu, e a seguir são apresentadas duas ilustrações para facilitar a compreensão do ouvinte. Essas parábolas não constituem o centro do discurso, mas são periféricas.
Lucas termina essa seção utilizando palavras de advertência de Jesus a respeito de que nada ficará oculto para sempre, os pecados serão manifestos tanto daqueles que julgam não tê-los (Simão) quanto daqueles que notoriamente os admitem (mulher pecadora). E que precisamos ter cuidado com a forma com que ouvimos a Palavra de Deus, pois aquele que tem verdadeiramente aprendido e praticado, crescerá, mas aquele que acha que sabe (não-praticando), na realidade nada sabe e o pouco que talvez saiba, perderá.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Parábola do Semeador

“O semeador saiu a semear... parte caiu à beira do caminho... parte sobre a pedra... parte no meio dos espinhos... e parte na terra boa...” Lucas 8: 5-8.


A parábola do semeador, como qualquer outra, descreve a experiência cotidiana de seus primeiros ouvintes. É a partir dessa identificação, que se tem a oportunidade de entender o significado, embora, nem sempre, esse primeiro ouvinte conseguia alcançar o sentido que se propunha, necessitando, assim, de uma explicação, na qual a aplicação era feita. Diante disso, pode-se imaginar a dificuldade que terá um leitor moderno de qualquer parábola antiga, que não encontra nenhuma relação com sua experiência cotidiana. No caso da parábola do semeador, o Senhor Jesus nos deu a aplicação, por isso, apesar de não se identificar com a situação apresentada na parábola, pode-se compreendê-la, sem, contudo, entender plenamente a estória.
Uma vez que a parábola sempre tem relação com o cotidiano do seu primeiro ouvinte, é necessário perguntar: por que alguém semearia na beira da estrada, sobre pedras ou entre espinhos até achar uma terra boa, a qual não conhecia de antemão? Nenhum agricultor faria isso, a menos que não tivesse outra opção para sobreviver. Lucas, no seu livro, nos informa, muitas vezes, que os ouvintes do Senhor Jesus eram pobres (4:18;6:20;7:22 etc), então, não tinham terras para plantar, lhes sobrava a faixa de terra entre a estrada e a propriedade privada ou outra imprestável para o plantio. Esse pobre contava com a “misericórdia de Deus” para achar uma terra que fosse boa e produzisse o necessário para si e sua família por um tempo considerável até uma próxima colheita. Isto significa dizer que a sobrevivência desse pobre dependia do agir de Deus sobre uma natureza “morta”.
Certamente, se reconhece que uma parte no processo de plantar e colher não depende do agricultor, mas é necessário um esforço muito maior do que simplesmente lançar a semente ao chão. Precisa-se selecionar a terra boa, arar, adubar, fazer a cova, lançar a semente, retirar o mato indesejado ao longo do processo de crescimento da planta, regar, colher, armazenar etc. O semeador da parábola, mesmo que quisesse, não poderia fazer tudo isso, a sua dependência de Deus era muito maior que qualquer outro agricultor.
Sabe-se, pela explicação da parábola que o Senhor Jesus nos concedeu, que a semente é a Palavra de Deus (8:11), os tipos diferentes de terra são os corações dos homens (8:12) e as dificuldades para a semente produzir nas terras ruins também são explicadas pelo Senhor Jesus, bem como a produção extraordinária na terra boa é explicada pela retenção e perseverança do ouvinte da Palavra. Mas a razão pela qual alguém semearia de qualquer maneira em qualquer lugar, sem trabalhar a terra que não é sua, não é explicada. Contudo, seus primeiros ouvintes sabiam.
Se nós hoje também soubéssemos, entenderíamos que a pregação da Palavra deve ser feita indiscriminadamente (a toda criatura); que o frutificar da Palavra não depende de nossos esforços, só nos cabe semear; que as terras (as pessoas) não são nossas e nunca serão; que mesmo que a terra for boa (não sabemos de antemão), sua produtividade em relação à quantidade de semente é sem igual (milagre); que o cento a partir de uma semente pode mudar a realidade de muitos famintos, não apenas do agricultor...
Que Deus nos ajude a termos “ouvidos para ouvir” (8:8)!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A Defesa de Paulo Junto aos Gálatas

“Quero que vocês saibam, irmãos, que o evangelho anunciado por mim não tem sua origem no homem, nem o recebi nem o aprendi de algum homem, mas através da revelação de Jesus Cristo”. Gálatas 1:11-12 (tradução do autor).


Depois de alguns anos, após as igrejas da Galácia estarem estabelecidas. Surgiram, no meio delas, homens judeus, que vieram de Jerusalém, trazendo uma mensagem evangélica acrescida da Lei de Moisés. Destacavam principalmente certos ritos judaicos, que afirmavam, serem fundamentais àqueles que quisessem pertencer ao povo de Deus. Essa mensagem “judaico-cristã” estava diretamente confrontando com a boa nova trazida por Paulo a eles anteriormente, pela qual tinham, mediante fé, crido e sido salvos.
Paulo, surpreso pelos gálatas terem recebido essa mensagem diferente, decide escrevê-los apresentando uma defesa de sua mensagem evangélica. Essa apologia é estabelecida a partir de argumentos que poderiam ser atestados pelos próprios gálatas. Paulo apresenta seis argumentos numa ordem cronológica que correspondem também ao seu proceder ao longo de seu ministério.
O primeiro argumento apresentado por Paulo refere-se à origem de sua mensagem, levemente ele lembra aos gálatas a forma como sucedeu seu chamamento por Cristo e conseqüentemente seu doutrinamento. Ele foi ensinado por inspiração proveniente do próprio Cristo. Dos lábios do Cristo ressurreto, ele aprendeu o Evangelho (vv. 11-12).
O segundo argumento utiliza a transformação operada naquele que outrora era perseguidor da igreja e defensor violento da Lei de Moisés. Com isso, ele fortalece a ruptura da Lei como uma revelação divina. Tendo enorme zelo pela Lei de Moisés a ponto de se destacar entre os de sua idade pela forma radical e irredutível com que a defendia, Paulo apresenta a renovação de sua mente da Lei para a Graça como uma demonstração da superioridade do Evangelho da graça de Deus, o qual eficazmente operou em sua vida e conseqüentemente em sua crença (vv. 13-14).
O terceiro argumento mostra sua independência dos apóstolos em Jerusalém (os doze) e de outros cristãos, os quais poderiam ter-lhe ensinado. Contudo, a boa nova que anunciava não ficava devendo nada àquela pregada pelos doze apóstolos. Isso constituía uma prova cabal de que o mesmo Senhor que revelara aos doze o Evangelho é também aquele que revelou as doutrinas cristãs a Paulo (15-17).
O quarto e o quinto argumentos são empíricos. Paulo, em duas ocasiões, visitou Jerusalém e esteve com os apóstolos e com os presbíteros e afirma que eles não viram necessidade de acrescentar nada à mensagem evangélica de Paulo. Na primeira visita o tempo de permanência com Pedro seria curto para um aprendizado suficiente. Na segunda visita, aqueles que eram considerados “colunas” da igreja entenderam que, de fato, o Senhor Jesus tinha estado com Paulo, visto que o conjunto das doutrinas que pregava coadunava-se com aquela pregada por eles. Diante dessa averiguação, os próprios apóstolos e presbíteros de Jerusalém ratificaram o ministério de Paulo, quando publicamente manifestaram comunhão com ele (1:18-2:10).
O sexto argumento é baseado num incidente ocorrido em Antioquia envolvendo Pedro. Naquela ocasião Pedro e Barnabé foram persuadidos pelos cristãos “judaizantes” que era necessário acrescentar ao evangelho os ritos judaicos contidos na Lei de Moisés. Paulo resistiu a esses ensinos e declara que ele e os demais judeus cristãos sabiam que “o homem não é justificado por obras da Lei, e, sim, mediante a fé em Cristo Jesus” (2:15-16). Fica evidente que todos envolvidos no debate foram convencidos pelo argumento de Paulo que a salvação é exclusivamente pela graça de Deus mediante a fé (2:11-21).
Diante disso, somente restava aos gálatas reconhecerem que a mensagem anunciada por Paulo era, de fato, o Evangelho genuíno revelado por Jesus Cristo, poderoso para salvar o mais vil pecador, nos quais os gálatas se enquadravam. Glória a Deus pelo Evangelho da graça de Deus!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Há Esperança

“Para a árvore pelo menos há esperança: se é cortada, torna a brotar, e os seus renovos vingam. Suas raízes poderão envelhecer no solo e seu tronco morrer no chão; ainda assim, com o cheiro de água ela brotará e dará ramos como se fosse muda plantada. Mas o homem morre, e morto permanece; dá o último suspiro e deixa de existir”. Jó 14. 7-10 (NVI).


“Na terra de Uz vivia um homem chamado Jó. Era homem íntegro e justo; temia a Deus e evitava fazer o mal”. Assim começa o livro de Jó. Apresentando seu personagem principal e descrevendo suas principais características. Contudo, o livro finaliza apresentando as palavras de Jó sobre si mesmo, as quais dizia: “... Menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42: 6). Diante disso, podemos perceber como Jó compreende, ao longo das suas amargas experiências, quem ele realmente é aos olhos de Deus. Sua história vai conduzi-lo a uma profunda percepção de sua humanidade caída. Ao longo do livro, Jó vai apresentar seus questionamentos a respeito do por quê está sofrendo tanto, sua vida íntegra não condizia com seus sofrimentos, seus amigos também não conseguem entender a razão de tanta desgraça e questionam a Jó a respeito de sua santidade, pois não era natural que um justo sofresse tanto, por isso, talvez, houvesse algo de errado na vida de Jó que ele não estava revelando.
Sem compreender exatamente o por quê estava sofrendo, Jó começa a reclamar com Deus sua desgraça. Jó não vê para si uma saída, começa a se conformar com sua desventura e num tom de lamentação começa a invejar a árvore. Sua lamentação aponta para um certo desnivelamento entre o homem, obra prima da criação divina, e a natureza, obra secundária na criação divina. Então exclama: como pode uma árvore ter a possibilidade de restauração, visto mesmo depois de morta, poder brotar e reviver e mesmo sendo velha poderá ser renovada, enquanto o homem não tem esperança! Na angústia de Jó, ele estava completamente cego a respeito dos propósitos de Deus para o homem. As palavras de Jó, nesse momento de tamanha angustia, não podem ser entendidas como normas divinas a respeito da finalidade da vida humana, pois são ditas num momento de desespero. Mas Deus não poderia deixar tais palavras insensatas sem resposta, por isso retrucará da seguinte maneira: “Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento?” (Jó 38: 2). Deus fica indignado com aquele que por não compreender o por quê de seus sofrimentos, vocifera palavras insanas contra os propósitos de Deus a respeito de sua criação e pergunta: “Aquele que contende com o Todo-poderoso poderá repreendê-lo?” (Jó 40: 2a). Jó precisava entender que sua visão a respeito dos fatos era limitada, Jó precisava confiar na forma de Deus agir. “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor” (Isaías 55: 8). Jó precisava descansar em Deus.
Depois de algum tempo a esperança de Jó foi revivida. Mesmo que ainda estivesse na angustia, que não conseguisse ver uma restauração de sua vida; contudo, sua esperança nos planos eternos de Deus começa alimentar sua alma. Jó ainda sem esperança a respeito das coisas deste mundo expressa então sua grande expectativa eterna de saber que seu redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra e depois, revestido seu corpo, veria a Deus (Jó 19: 25-26). Assim Jó começa a entender que Deus estava trabalhando no seu coração para que ele entendesse que a vida não consiste apenas nas coisas temporais e por fim Jó vai declarar que compreende sua verdadeira miséria e que só Deus é justo. Depois de tudo que passou, Jó pôde afirmar que agora conhecia, de fato, quem era Deus.
Da mesma maneira nós, quando conhecemos verdadeiramente quem é Deus, podemos compreender que somos pó e cinza. Aí então, buscaremos o Salvador, que é Cristo o Senhor.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Apostasia dos Gálatas

“Estou impressionado que tão rapidamente vocês estão afastando-se daquele que lhes chamou na graça, para outro evangelho”. Gálatas 1: 6. (Tradução do autor).



Alguns poucos anos após o apóstolo Paulo ter iniciado a evangelização da Galácia (1ª e 2ª viagem missionária), ele fica sabendo que os gálatas, influenciados por falsos mestres, estavam se afastando do Evangelho da graça de Cristo. Essa alteração se dava a partir da persuasão de falsos irmãos que procuravam convencê-los que para ser salvo era necessário, além da fé em Cristo, observar os ritos e preceitos da Lei de Moisés. Ao longo da Carta, Paulo procurará trazê-los de volta ao Evangelho de fato, visto não se poder chamar de Evangelho qualquer outra mensagem que seja diferente daquela pregada pelos apóstolos. Qualquer mensagem que aumente ou diminua o Evangelho não pode ser recebida como tal, não importa se até mesmo o mensageiro vier do céu. É importante observarmos que Paulo fala, num sentido hipotético, de um possível mensageiro vindo do céu e não vindo da parte de Deus. É evidente que céu não tem o sentido de morada de Deus. Diante disso, Paulo afirmará que não pode haver variação do Evangelho, se for diferente, então não é o Evangelho. Assim, o que estava sendo recebido pelos gálatas não era o Evangelho.
Antes de re-estabelecer o conceito do Evangelho, Paulo vai apontar a apostasia, isto é, o afastamento de Deus. Os gálatas estavam longe de Deus, isto se dava pelo fato de estarem rejeitando a graça de Deus. A graça é o ponto central do Evangelho, excluir a graça ou misturá-la com os méritos humanos é, de fato, uma alteração tão brusca das boas novas de Deus que jamais poderá ser classificada como Evangelho, será qualquer outra coisa menos o Evangelho. Assim, qualquer pessoa que receba um “evangelho” mutilado da graça estará crendo em vão, pois tal “evangelho” não poderá salvá-lo, “Porque pela graças sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Ef. 2: 8).
Assim como a graça é o fundamento do Evangelho, também o é a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos que dormem em Cristo na sua vinda. Por isso o mesmo princípio é estabelecido por Paulo na 1ª Carta ao Coríntios 15: 2, que se excluírem a ressurreição do Evangelho, a fé dos que crerem nessa aberração será vã, isto é, ineficaz, não trará salvação. Daí o peso que está sobre os que receberam o Evangelho da graça de Deus de anunciar o Evangelho a todos, visto não ignorarmos que uma mensagem mutilada do Evangelho também é anunciada nos nossos dias.
A preocupação de Paulo se torna evidente quando ele enfatiza a necessidade de estarmos atentos a qualquer um que anuncie um “evangelho” diferente daquele que encontramos nas Cartas Apostólicas (N.T.). Para que não sejamos confundidos, precisamos seguir o exemplo dos crentes da cidade de Beréia (Atos 17: 11) que examinavam tudo que lhes era ensinado por Paulo, conferindo no V.T. as referências a respeito de Cristo e de sua morte e ressurreição. Também não podemos ignorar a maldição que está sobre todo aquele que levar ao povo um “evangelho” diferente daquele estabelecido pelos apóstolos (N.T.). Paulo ainda ressalta a possibilidade de alguém que tendo anunciado o Evangelho com fidelidade, passar a transmitir uma mensagem deturpada, por isso Paulo diz: “... ainda que nós... pregue evangelho diferente... seja maldito” (Gl. 1: 8).
Portanto, a Carta aos Gálatas é atualíssima no sentido que enfrentamos as mesmas situações que os gálatas enfrentaram, isto é, líderes “cristãos” que insistem em anunciar uma mensagem desprovida do Evangelho da graça de Deus, arrastando milhões à condenação, como disse Jesus: “Cego guiando cego, ambos cairão no abismo”.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Aos Gálatas

A Libertação da Influência do Mundo Maligno

“A vós graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo, o qual se ofereceu voluntariamente a si mesmo pelos nossos pecados, para nos libertar deste presente século maligno, segundo a vontade de Deus, nosso Pai”. Gálatas 1: 3-4. (Tradução do autor).


A Carta aos Gálatas inicia com uma breve defesa de Paulo a respeito de sua autoridade apostólica. Ele faz questão de afirmar que sua chamada ao apostolado não se deu por um concílio de homens, mas por uma chamada direta do Senhor Jesus ressurreto dentre os mortos. Uma vez que sua mensagem estava sendo questionada, bem como sua autoridade de apóstolo. Paulo procurará lembrar aos gálatas que a experiência deles ao ouvir a pregação do Cristo crucificado foi uma evidência bastante clara do poder transformador do Evangelho da graça que tinham ouvido da parte dele. Isso seria uma das muitas evidências que ratificava sua mensagem. Os gálatas precisavam, de modo sensato, observar que a libertação operada neles foi a partir da fé na pregação de Paulo que tinha como ponto principal a morte de Jesus Cristo como pagamento pelos nossos pecados e a libertação do poder do pecado na vida deles. O poder que agora experimentavam sobre o pecado era uma conseqüência direta da ação do Espírito Santo nos seus corações a partir da fé e não do esforço de se enquadrar num conjunto de leis e regras constituídas de rituais, tal como a circuncisão e outros mais, na tentativa de purificar-se pela ação ritual constituída por uma obediência cega, própria daqueles que não são livres ou não são maduros ou não têm o Espírito Santo que os possa guiar. Os gálatas precisavam lembrar que experimentaram todo o processo de uma nova vida antes mesmo de conhecerem a Lei de Moisés. Isso, eles não poderiam negar.
No v. 4, Paulo inicia uma exposição bastante objetiva do propósito da morte de Cristo. Primeiramente, ele diz que Cristo se entregou para morrer voluntariamente, o verbo dídomi (oferecer, dar) traz a idéia de voluntariedade, aquilo que é oferecido sem uma razão obrigatoriamente pré-estabelecida. Com isso Paulo lembra as palavras do Senhor Jesus “Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para reassumi-la. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou...” (João 10: 17-18). O objetivo primário dessa expiação voluntária é o perdão de todos os nossos pecados, o quê nos possibilitará estar eternamente em comunhão com Deus, salvos eternamente, pois todos os nossos pecados foram punidos em Cristo, “...o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele...” (Isaías 53:5). Contudo, os gálatas precisavam lembrar também que a salvação não tem apenas implicação eterna ou pós-morte, mas que ela afeta diretamente nossa vida neste mundo. A salvação tem um aspecto que não pode ser ignorado, isto é, ela produz uma libertação da influência maligna deste sistema mundano governado por Satanás, o príncipe deste mundo que atua nos filhos da desobediência (Efésios 2: 2). Essa libertação é operada por Cristo ao nos extrair do domínio do pecado, “...o pecado não terá domínio sobre vós...” (Romanos 6: 14). Ao sermos salvos por Cristo pela fé, temos a libertação do poder do pecado; logo, tentar purificar-se pela obediência a Lei de Moisés caracterizará uma evidente tentativa de justificação e com isso se dirá que a Obra de Cristo não foi suficiente para efetuar uma purificação eficaz, também significará que ainda somos escravos do pecado e estamos sob a maldição, pois transgredir um mandamento da Lei constitui condenação total.
Em segundo lugar, além de ao longo da Carta, ele argumentar que a Lei teve um propósito provisório e que seu fim estava pré-determinado. E para convencê-los ele utilizará a ilustração em que comparará a Lei a um escravo que durante um tempo pré-estabelecido exerce uma autoridade pedagógica sobre o filho do senhor. Assim também, ao falar da influência maligna deste mundo, ele diz que essa influência é provisória, não durará para sempre, apenas um “século”, com a palavra “século”, ele quer dizer um período de tempo caracterizado por certo modo de vida e não uma medida temporal de cem anos.
Por fim, Paulo conclui o pensamento introdutório da Carta aos Gálatas, glorificando a Deus por sua vontade de não apenas salvar-nos eternamente, perdoando todos os nossos pecados, mas também nos conceder a graça de podermos viver uma vida plena de liberdade. A vontade de Deus foi de antemão preparar um povo zeloso e de boas obras (Efésios 2: 10), que tivesse uma vida vitoriosa contra o pecado, completamente livre da influência maligna deste mundo perverso.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Importância da Família

“Jesus, porém, não lho permitiu, mas ordenou-lhe: vai para tua casa, para os teus, anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti”. Marcos 5.19.


A vida do endemoninhado geraseno nos mostra o quanto é possível que alguém se afunde no pecado a tal ponto que todos que estão a sua volta se afastem. Marcos nos relata que a família do geraseno, seus amigos e todos os cidadãos daquela terra não conseguiam se relacionar com ele. Por isso ele chegou a morar entre os mortos. Como alguém chega a uma situação dessa? É evidente que isso não aconteceu de uma hora para outra, certamente foi um processo longo que culminou nessa situação. Podemos deduzir que primeiro ele foi uma ameaça para sua família, ninguém conseguia conviver com ele; depois se tornou uma ameaça aos amigos e por fim à sociedade. Todos procuravam neutralizá-lo, mas ninguém conseguia. Além de tirar a paz dos outros, ele também não tinha paz: “Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelos montes, ferindo-se com pedras”. Assim é a vida de quem não tem paz: não tem bons relacionamentos, não consegue dormir, fere os outros e a si mesmo.
Mas um dia, Jesus foi àquela região, e o geraseno não perdeu a chance de mudar sua história. Aproximou-se de Jesus como estava, sem receio ou vergonha, corre na direção de Jesus e O adora.Vendo a sua miséria e seu desejo de mudança, Jesus faz aquilo que ninguém naquela circunstância faria. Jesus lhe mostra amor e acima de tudo, Jesus mostra seu poder e liberta aquele homem dos demônios que o dominavam. Depois de experimentar o poder transformador de Jesus, aquele homem se torna um homem dócil, sereno, equilibrado e em perfeita paz aos pés de Jesus. Agora, ele está disposto a seguir Jesus, num sentido mais restrito, ele queria acompanhar Jesus, ou seja, estar ao seu lado para servir, talvez para realizar pequenas tarefas que trouxessem satisfação a Jesus, diante de tamanha gratidão, esse era o desejo do novo geraseno.
Contudo, acontece algo interessante. Jesus mostra àquele homem que servir a Cristo é anunciar a Sua Salvação, é testificar as pessoas aquilo que Jesus lhe fez, é levar a Palavra da Salvação a todas às pessoas. Jesus lhe mostra que ele deveria começar pela sua família, deveria voltar-se para ela, deveria restaurá-la, a comunhão deveria ser re-estabelecida. Então Jesus lhe diz: “Vai para tua casa, para os teus...”. A importância da família, dos laços familiares é aqui manifesta pelo nosso Senhor.
Meu caro leitor, como andam seus relacionamentos familiares? Você tem tido, de fato, plena paz? Jesus Cristo é o único que pode transformar sua vida, libertá-lo dos seus pecados e lhe dar uma esperança eterna por meio de seu sacrifício expiatório. Arrependa-se dos seus pecados e vá a Jesus e Ele lhe salvará.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Palavra da Cruz

“Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus” (1Co. 1.18).


Infelizmente a cruz não traz mais a imagem de horror que representava no século I, qualquer romano que visse a cruz, ou mesmo um desenho dela, lembraria do horror de morte que ela suscitava. O que se dizer da mensagem da cruz? Estaria ela ainda trazendo ao ouvinte o horror da morte? Estaria nos fazendo compreender plenamente o preço que representou para Jesus enfrentá-la no nosso lugar? Assim como ainda nas primeiras décadas da igreja, os crentes de Corinto estavam deixando de lado a mensagem da cruz, pois ela não era nem um pouco atrativa aos ouvintes contemporâneos. Quem estaria disposto a ouvir ou mais a seguir um homem que foi crucificado na cruz, um instrumento de execução reservada aos piores e mais desprezíveis criminosos? Assim também hoje, a mensagem da cruz tem sido suavizada diante de muitos. Precisamos reviver a mensagem da cruz, precisamos voltar a dizer ao homem que “todos pecaram e estão separados de Deus”, que “o salário do pecado é a morte, mas o presente gratuito de Deus é a vida eterna por Jesus Cristo, nosso Senhor”. Essa tão grande salvação é oferecida ao homem porque Jesus pagou o preço dos nossos pecados naquela cruz. Precisamos lembrar que nós a merecíamos, mas Jesus nos substituiu nela. Quanto maior for nossa identificação com a cruz de Cristo, maior será nossa gratidão, maior será nosso esforço para vencer o pecado, pois saberemos plenamente o que os nossos pecados representaram para Cristo no Gólgota.
A mensagem sobre um homem que foi crucificado e ressuscitou ao terceiro dia é loucura para os que se perdem. De fato, não faz sentido racionalmente, nem mesmo demonstra poder. Daí os “gregos” e os “judeus” a rejeitarem. Uns buscam uma explicação racional para justificar a razão da existência humana, outros buscam uma demonstração sobrenatural de poder. A cruz não os satisfaz. Esses dois grupos atravessaram o tempo e hoje ainda podemos vê-los, mas infelizmente a Palavra de Deus os classifica como os que se perdem. A mensagem da cruz é sabedoria, pois revela o amor imensurável de um Deus gracioso; a mensagem da cruz é poder, pois traz ao mais vil pecador uma transformação de caráter, de sentido de vida inexplicáveis. A sabedoria de Deus pressupõe a ruína total dos esforços humanos para conhecê-Lo e apresenta um caminho de graça que inicia com uma profunda consciência de miséria, passa por um arrependimento profundo de pecados e conduz o homem a plena paz na certeza que todos os seus pecados foram castigados em Jesus. A partir daí o homem é transformado à imagem de Cristo, pois passa a ter a mente de Cristo.
Até que ponto a palavra da cruz tem tido, de fato, parte em nossa vida? Até que ponto o Cristo crucificado e ressurreto tem moldado o nosso viver? Até que ponto Ele tem sido visto em nós? Que a cada dia possamos lembrar a sua cruz e dizer com toda a profundidade merecida “eu aqui com Jesus, a vergonha da cruz, quero sempre levar e sofrer”.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Quando a Fé Some

“E Jesus estava na popa, dormindo sobre o travesseiro; eles o despertam e lhe dizem: Mestre, não te importa que pereçamos!” Marcos 4. 38.



Há muitos momentos na nossa vida que a nossa fé fica tão pequena que parece que sumiu. Não pense que isso só acontece com você, todos os discípulos passam por esses momentos difíceis. No episódio em que Jesus acalma a tempestade, vemos os discípulos demonstrando uma ausência de fé naquele que estava com eles e era poderoso para socorrê-los. A situação estava assustadora, tiveram um dia exaustivo de trabalho, e então, voltavam para casa tarde da noite atravessando o mar que, de repente, ao que parece, levantou-se um grande temporal e eles assustados e sabendo que o barco ia afundar, tentavam de várias maneiras controlá-lo. Ao perceberem que não conseguiriam, se convenceram que era o fim. Chocados com a “indiferença” de Jesus que dormia enquanto lutavam contra o mar revolto, fazem uma afirmação impressionante que, desta vez, choca Jesus, isto é, pensaram que Jesus não se importava se pereceriam ou não e então afirmam: mestre, não te importa que pereçamos! Observe que eles não estavam fazendo uma pergunta, eles estavam afirmando que o mestre não se importava com o destino deles. Foi exatamente essa afirmação exclamativa que chocou Jesus que se levanta, repreende a tempestade e em seguida censura-lhes a falta de confiança nEle. Jesus não esperava que eles repreendessem a tempestade e acalmassem o mar, pois isso é algo que somente Deus pode fazer, por isso quando a tempestade se acalma, eles perguntam entre si: “quem é esse que até o vento e o mar lhe obedecem?”. Mas Jesus esperava que mostrassem confiança nEle e que nunca pensassem que Jesus ficaria indiferente às necessidades deles. Creio que a censura se deu porque ao invés de pedir a Jesus que os socorresse, se convenceram que Jesus não “poderia” fazer nada para mudar a situação a não ser aquilo que qualquer homem faria nessa hora, lutar com seus braços contra a tempestade.
Será que, às vezes, não agimos dessa forma? No meio de uma grande “tempestade”, lutamos com todas as nossas forças para vencê-la e esquecemos que no nosso “barco” tem alguém que pode nos socorrer e acalmar a “tempestade?” Ou pensamos que Jesus não nos ajudará, visto sermos tão pecadores e muitas vezes tão infiéis? O que Jesus espera de nós é a confiança nEle, pois ”sem fé é impossível agradar a Deus”.
Portanto, não sejamos tímidos na nossa fé, sejamos firmes e inabaláveis, sabendo que o nosso Senhor Jesus está conosco até a consumação dos séculos e nos ama e se interessa pela nova vida, cheguemos a Ele com coração contrito e cheio de fé em oração, pois Ele cuida de nós. Aleluia!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Espirituais

“E eu, irmãos, não pude falar a vocês como a espirituais, mas como a carnais, como recém-nascidos em Cristo”. “A respeito de sermos espirituais, irmãos, não quero que vocês sejam ignorantes”. I Coríntios 3:1 e 12:1. (Tradução do autor).


Apesar das duras advertências feitas pelo apóstolo Paulo aos coríntios, em nenhum momento ele crê que os coríntios não eram salvos pela fé em Jesus Cristo, suas duras palavras procuravam despertá-los para uma vida cristã que demonstrasse a imagem de Cristo através do poder do Espírito Santo. Os coríntios não estavam vivendo uma vida controlada pelo Espírito Santo, mesmo assim, Paulo não diz que não tinham o Espírito Santo. Ao chamá-los de irmãos, ele afirma que O tinham, mas teria de falar-lhes como se não tivessem, isto é, como a carnais. Ao fazer a oposição entre carnal e espiritual, Paulo mostra que existe a possibilidade de se encontrar crentes verdadeiros que, num determinado momento, vivem dominados pelo pecado de tal forma que parecem que não são crentes. No Caso dos coríntios, nos primeiros capítulos, Paulo aponta um grave pecado no qual estavam vivendo, isto é, facção. “Eu sou de Paulo, e eu de Apolo, e eu de Cefas, e eu de Cristo” (1:12). A divisão entre eles era evidência de uma vida em que os desejos carnais dominavam. Semelhantemente aos descrentes, disputavam em grupos separatistas, ignorando a unidade do Corpo de Cristo, em quem foram salvos.
Ao longo da primeira Carta, Paulo procura despertá-los para uma vida espiritual baseada no fruto do Espírito: amor (13:1-3), longanimidade e benignidade (13:4), domínio próprio (13:4-5), bondade (13:5), fidelidade (13:7), mansidão (13:5, 7), alegria (13:6) e paz (13:7). Ele os convida a um caminho melhor, um caminho que os conduzirá a uma vida espiritual. Diante de tantos pecados: facção, imoralidade (5:1), egoísmo (6:7), orgulho (4:3, 7,8), heresia (15:12) e ainda a crença no fato de terem determinados dons e que isso os faziam espirituais. Paulo propõe, no início do capítulo 12, ensiná-los a respeito de uma vida espiritual. Por isso ele começa dizendo que não quer que sejam ignorantes a respeito de como ser espiritual. A mesma palavra que Paulo usa no capítulo 3:1 (pneumatikós), também usa em 12:1. Por que traduzir de modo completamente diferente, se ele ainda está advertindo aos coríntios a deixarem suas práticas carnais e se voltarem para uma vida espiritual? Os coríntios precisavam aprender que o exercício dos dons espirituais não é evidência de uma vida espiritual, visto que os dons são concedidos por Deus mediante sua graça para um propósito específico, não há nos dons nenhuma motivação para gloriar-se, visto que não são concedidos por méritos. Também precisavam aprender que não há um dom comum a todos os crentes, “pois se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?” ( 12:19). Que eles tinham todos os dons é evidente (1:7). Que estavam mergulhados em muitos pecados também é evidente, contudo, o grande propósito da Carta é conduzi-los a uma vida espiritual.

sábado, 19 de setembro de 2009

O Que é o Inferno?

“E eu também digo a ti que tu és Pedro, e sobre esta rocha construirei a minha igreja e as portas da morte não vão segurá-la” Mateus 16: 18 (tradução do autor).


O uso da palavra “inferno” para traduzir várias palavras diferentes no Novo Testamento (NT) e a influência da mitologia Greco-romana levaram a um conceito completamente diferente de inferno daquele apresentado no texto original do NT. As palavras hades, geena e tártaro são traduzidas pela maioria das traduções por inferno. No entanto, elas apresentam conceitos distintos. Hades (4 vezes nos Evangelhos e 3 no Apocalipse) era a palavra usada na cultura grega para apontar o lugar para onde as almas dos mortos iriam; geena (11 vezes nos Evangelhos e 1 em Tiago) era o lugar onde ao redor de Jerusalém jogavam o lixo, restos de animais e indigentes, ou seja, o lixão. Por ser um lixão produzia um gás que mantinha o fogo aceso ininterruptamente. Jesus usa essa palavra para descrever o lugar de punição para os ímpios (Mt. 5: 22); tártaro (1 vez) descreve o lugar de prisão dos anjos caídos (2 Pe. 2: 4), na mitologia grega era o lugar onde foram aprisionados os deuses (colossos) derrotados numa batalha entre deuses.
Em nenhuma passagem no NT o Diabo é apresentado habitando o hades, geena ou tártaro. No Evangelho (Mt. 4:1) e nas epístolas (2 Co. 4: 4; Ef. 2: 2; 1 Pe. 5: 8) ele é apresentado habitando a terra, influenciando, tentando e cegando os homens. Sobre sua aparência não há nenhuma indicação de chifres e cauda, pelo contrário, ele se apresenta como anjo de luz (2 Co. 11: 14). De onde vem, então, a “crença” que o “inferno” é governado por Satanás e que lá ele atormenta as almas com um garfo de três dentes e que sua aparência é horrível? Certamente não vem da Bíblia. Na verdade, vem da mitologia grega. Pois nela havia o deus Hades que governava o mundo subterrâneo para onde as almas dos mortos iriam.
O Diabo será preso, segundo Apocalipse 20: 1-3, na vinda do Senhor Jesus à terra para estabelecer seu Reino Milenar, será solto após os mil anos, vencido e lançado para todo sempre no lago de fogo (Ap. 20: 10). Seria o lago de fogo o inferno? Pode ser que sim, contudo, Satanás não o governará, lá ele será punido eternamente. A morte e o hades serão lançados no lago de fogo (Ap. 20: 14). Diante disso, o que é o hades? Hades é o lugar onde os mortos estão. A partir da passagem do Rico e Lázaro (Lucas 16: 19-31), podemos concluir que: há uma separação entre a parte que os salvos habitam e a parte que os ímpios habitam (Lc. 16: 26); os ímpios podem ver os salvos (23); há lembrança da vida na terra (27, 28); há tormentos para os ímpios (23); há refrigério para os salvos (22, 25); não há possibilidade se passagem entre as partes (26); a única possibilidade de retorno a terra é pela ressurreição (31). Já que as portas do hades não deterão a igreja, pois ela ressuscitará, temos a esperança da vida eterna. Enquanto os que morrerem sem Cristo permanecerão no hades até ao dia em que ressuscitarão para a condenação eterna, a segunda morte (Ap. 20: 5, 11-13), o lago de fogo.
Em Mateus 16: 18, Jesus não estava se referindo a uma batalha entre o reino de Satanás e o Reino de Deus, embora o conceito de que exista essa batalha está presente no NT (Ef. 6: 12). Mas nesse momento Jesus estava se referindo ao poder da igreja frente à morte. O uso da palavra “porta” indica retenção ou resistência e nunca poderia indicar ataque. Jesus nos ensina que as portas do reino da morte não poderão deter a igreja. Aqueles que morrerem em Cristo vencerão a morte, ou seja, as portas da morte não prevalecerão contra a igreja de forma que possam impedi-la de sair. Jesus aponta o futuro, pois o último inimigo a ser vencido será a morte (1 Co. 15: 54-56).
Jesus Cristo é a rocha na qual a igreja está fundamentada (1 Pe. 2: 6-7). Diante das muitas opiniões acerca de quem seria ele, Jesus pesquisa entre seus discípulos o que eles crêem a seu respeito. A resposta de Pedro mostra que de fato criam na divindade de Cristo “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus, então, consola seus corações a respeito da morte ao dizer que a igreja não permanecerá na morte, assim como Ele vencerá a morte, tornando-se o primeiro de muitos, assim também a igreja vencerá (1 Co. 15: 20-23). Jesus os está preparando para o evento de sua morte e apontando que sua morte não será o fim, mas o começo de uma nova era.
Graças a Deus que as portas da morte não deterão a igreja!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Salvação Executada

“Assim, meus amados, como sempre vocês obedeceram, não apenas na minha presença, porém muito mais agora na minha ausência, ponham em ação a salvação de vocês com temor e tremor”. Filipenses 2: 12. (NVI).


A salvação pela graça é a doutrina mais importante do Evangelho, pois ela expressa o grande amor de Deus pela humanidade. Ao sabermos que fomos salvos pela graça e misericórdia de Deus, nosso coração se enche de gratidão e somos cativados a dizer: “Como posso retribuir ao Senhor toda a sua bondade para comigo?”. A resposta é nos dada logo em seguida: “Erguerei o cálice da salvação” (Sl. 116: 12). É evidente na resposta a posse da salvação, então poderíamos dizer: como retribuirei ao Senhor a salvação recebida? E concluindo que não há nada que poderíamos fazer para pagá-la, responderíamos: tornarei pública a salvação do Senhor. Assim entendemos que o salmista manifestava sua imensa gratidão e vasculhava no coração uma maneira de agradar ao Senhor diante de tamanha graça. Contudo, reconhece que vivê-la seria a melhor maneira de expressar gratidão.
Quando lemos o Novo Testamento podemos observar, principalmente o apóstolo Paulo, se esforçando para convencer seus leitores que a salvação efetuada em nós deveria nos conduzir ao “exercício de nossa cidadania de maneira digna do Evangelho” (Fp. 1: 27), que uma vez salvos, “somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras” (Ef. 2: 10) e mais, “Nós os que morremos para o pecado, como podemos continuar nele?” (Rm. 6: 2). Constantemente ele reafirma que a salvação é um presente de Deus e que ninguém é salvo pelas obras ou esforço, pois a glória é toda de Cristo (Ef. 2: 8-9).
Assim também aos filipenses ele ordena: “Ponham em ação a salvação de vocês”. A palavra grega εαυτων (heautôn) traduzida por “de vocês” indica posse, isto é, a salvação pertence a vocês, foi dada a vocês, então, vivam-na, executem-na, ponham-na em prática. Não podemos deixar de perguntar como fazer isso, todavia, a resposta está no versículo 5, o qual ordena: “Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus”. Tal atitude de Cristo é descrita nos versículos 6 a 8, a qual é obediência. Ainda no versículo 12 ele reafirma a obediência. Assim, pôr em prática a salvação significa obedecer a Palavra de Cristo.
Se nós somos salvos, somos de Cristo, pertencemos a ele. Fomos comprados por preço de sangue, ele se tornou nosso Senhor. Logo, não somos de nós mesmos, somos dele, devemos viver para ele. Portanto, temor e tremor deveria ser nossa atitude para com aquele que é todo-poderoso, se primeiro o amor não inundasse nosso coração, derramado pelo Espírito Santo, o qual habita em nós.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Machado de Eliseu

“Sucedeu que, enquanto um deles derrubava um tronco, o machado caiu na água; ele gritou, e disse: Ai! Meu senhor! Porque era emprestado”. 2º Reis 6: 5.


Eliseu é um profeta de grande importância no Velho Testamento, pois ele foi um dos poucos que, entendendo o propósito de Deus para a humanidade, propôs alcançar o maior número possível de pessoas com a Palavra de Deus. Numa visão que antevia o sistema pedagógico de Jesus, o qual preparou um grupo de discípulos para que pudesse alcançar através deles um maior número de pessoas com o Evangelho, dá continuidade a um sistema semelhante, uma escola de profetas. Seu objetivo era levar a Palavra de Deus a todas as pessoas em Israel, contudo, a Palavra foi além das fronteiras (2º Reis 5: 1-19). Além de formar novos profetas, também se preocupava com suas necessidades familiares (2º Reis 4: 1-7). Através dessa escola de profetas, preparou inúmeros homens para que fossem até ao povo com a Palavra de Deus. Povo que para ouvi-la tinha de se deslocar até ao Templo de Jerusalém e lá após realizar seu sacrifício pelo pecado, permanecer ainda mais um pouco para aprendê-la. É evidente que poucos teriam condições de se deslocar para Jerusalém constantemente, assim o conhecimento do Senhor estaria restrito a um pequeno grupo de privilegiados. Mas o Senhor deseja que todos cheguem ao conhecimento da salvação. Eliseu, então, cumpre o mandato do Senhor ao levar a bênção a todas as famílias por meio da Palavra de Deus. E assim, Deus avivou aquele povo de tal maneira, que a casa onde funcionava a escola ficou pequena para abrigar tantos novos candidatos a missionários. Os alunos, empolgados com a possibilidade de ampliar o número de novos profetas, sugerem a Eliseu ampliar a escola. Eliseu acata a sugestão e após insistirem, os acompanha nessa empreitada.
Naquela época, século IX a. C, o machado era um instrumento caro e incomum, haja vista que provavelmente a escola de profetas não teria recursos abundantes, pois era independente do governo e do sistema religioso organizado, o Templo de Jerusalém. A prova disso é o fato de terem tomado emprestado o machado. Enquanto manuseava-se o machado, não se percebeu que ele afrouxava e por fim veio a soltar-se do cabo e cair no rio Jordão. O desespero tomou conta dos discípulos, mas o homem de Deus com toda sua experiência estava presente e após identificar o lugar exato onde o machado caíra, fez o ferro flutuar a partir de uma madeira lançada no lugar da queda. A alegria foi restaurada e a Obra do Senhor prosseguiu.
Além de aprendermos com o exemplo de Eliseu, um homem que se preocupou em encher a terra com o conhecimento do Senhor, também podemos extrair algumas lições do episódio com o machado: I. Assim como o machado era emprestado e fundamental ao serviço, assim também Deus nos emprestou dons e talentos essenciais à realização da Sua Obra e um dia teremos de prestar contas; II. Assim como o machado se afrouxou na mão do profeta, assim também nossos dons podem se afrouxar e tornar-se ineficazes por causa de nossos pecados não confessados; III. Assim como o profeta insistiu em continuar cortando as árvores com o machado frouxo, assim também se insistirmos em fazer a Obra de Deus em pecado, nós perderemos nossos dons; IV. Após o profeta perder o machado, Eliseu o restituiu depois de identificar o lugar da queda e lançar uma madeira sobre o local, assim também a restituição do crente ao serviço do Senhor não acontecerá sem que lembre onde caiu, arrependa-se e volte às praticas das primeiras obras, crendo que o sangue de Cristo derramado no madeiro nos purifica de todos os pecados; V. Contra todas as leis da física, o machado flutuou no rio, assim também contra todas as opiniões, as quais dizem: para ti não há mais jeito, Deus diz: Tudo é possível ao que crer.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Presbíteros de Éfeso Ouvem Paulo em Mileto

Atos 20: 17-38

“Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do Evangelho da graça de Deus”. Atos 20: 24.


Esse é o terceiro discurso de Paulo em Atos, o primeiro foi dirigido aos judeus (cap. 13), o segundo aos descrentes (cap. 17) e esse aos presbíteros. Seu objetivo era aconselhá-los a partir de seu exemplo, como disse Pedro: “Não como dominadores dos que vos foram confiados, mas tornando-vos exemplos do rebanho” (1º Pe. 5: 3). Paulo começa e termina seu discurso citando sua maneira de conduzir-se no meio deles. Um proceder constante e perseverante que visava exclusivamente o ensino da Palavra de Deus particular (nas casas) e publicamente (na sinagoga e na escola de Tirano (At.19:9)). O centro de sua pregação é apresentado no v. 24: “O Evangelho da graça de Deus”. Ele o desenvolve resumidamente nessas poucas palavras, nas quais podemos extrair ensinos valiosos sobre o Evangelho: 1º Arrependimento e Fé (v.21) – são fundamentos para a salvação do ouvinte, a mensagem que não desperte arrependimento de pecados e não conduza à fé em Jesus para a salvação, jamais poderá ser considerada uma pregação do Evangelho; 2º A graça (v.24) – o evangelho é a manifestação do favor de Deus ao homem que merece apenas a condenação, mas que devido à rica e abundante misericórdia de Deus, pela fé em Cristo, pode receber a salvação como presente de Deus (Ef.2: 8,9); 3º A aquisição (v.28) – somos adquiridos por Cristo, exclusivamente dele. O verbo traduzido por comprar indica uma ação de salvar e uma aquisição exclusiva, também aparece em 1º Tess. 5: 9; 2º Tess. 2: 14 e 1º Pe. 2: 9 sempre trazendo a idéia de posse exclusiva. Não é por acaso que Paulo usou o termo “servindo como escravo ao Senhor” (20: 19); 4º A edificação (v.32) – a firmeza não vem se não pela Palavra, a qual manifesta a sublime riqueza da graça de Deus. A graça nos leva à gratidão, a gratidão à perseverança, a perseverança à solidez, assim na graça edificamos uma casa sobre a rocha, pois se a nossa salvação dependesse de nossas obras ou méritos, seríamos como a casa firmada sobre a areia (Mt. 7: 24-27); 5º A herança (v.32) – não apenas fomos comprados, mas também recebemos o status de filho, sentamos a sua mesa, comemos de seu pão e bebemos de seu vinho. Pois no seu sangue foi ratificado um novo testamento, pelo qual fomos feitos herdeiros incondicionalmente.
Também nesse discurso, podemos aprender sobre as reais características de um servo que ama seu Senhor e se dedica ao seu chamado, façamos um diagnóstico de nós mesmos à luz desse servo exemplar, o qual pôde dizer: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1º Co. 11: 1). Não é difícil dizer às pessoas o que elas tem de fazer, difícil é arrastá-las após si. Paulo os arrastou após si, conquistou seus corações e agora diante de sua partida, sabendo que não mais o verão, o beijam com ternura. Vejamos algumas atitudes de Paulo que o qualificaram a tornar-se um líder de credibilidade: 1º Grande devoção no serviço do Senhor; tristezas, dificuldades e perseguições não o afastavam do seu objetivo (v.19); 2º Fidelidade à chamada para anunciar a Palavra de Deus a todos, em qualquer hora ou lugar (v.20); 3º Colocar o Reino de Deus em primeiro lugar na vida, acima de tudo, até mesmo da própria vida (v.24); 4º Amizade sincera, sem invejas ou cobiças, nunca abusou da liberdade concedida pelos irmãos para explorá-los. Apesar de que os que estavam com ele, estavam servindo à igreja e ao Evangelho, nunca impôs sobre os irmãos o dever de sustentá-los, embora devessem. Contudo, Paulo estava disposto a fazer isso com suas próprias mãos (vs.33,34).
Nessa passagem duas palavras são usadas para liderança: presbýteros e epískopos; a primeira é transliterada para presbítero e a segunda para bispo. Ambas trazem a mesma idéia: aquele que lidera, supervisiona.
Para maior esclarecimento leia meu artigo “Presbítero ou Bispo”. http://profemersonalmeida.blogspot.com/2008/09/presbtero-ou-bispo.html

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Paulo Visita Macedônia, Grécia e Cidades do Egeu

Atos 20: 1-16

“Porque a nossa momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas”. 2º Coríntios 4: 17-18.


Durante três anos Paulo esteve em Éfeso, desenvolveu um excelente trabalho de ensino e implantação de igrejas. Em Éfeso foi informado pela casa de Cloe (1º Co. 1: 11) acerca das divisões entre os coríntios, então, lhes escreve a primeira carta (1º Co. 16: 19), corrigindo-os e manifestando o desejo de visitá-los (1º Co. 4: 19), envia-lhes Tito. Depois de algum tempo, Paulo já na Macedônia (Atos 20: 1), Tito o encontra com boas notícias acerca do impacto da primeira carta e conseqüente arrependimento dos coríntios (2º Co. 7: 5-8). Paulo, então, escreve a segunda carta aos coríntios. Ao tratar dos assuntos ainda pendentes, Paulo aproveita para ensinar-lhes a respeito da generosidade, testificando do amor demonstrado pelas igrejas da Macedônia, as quais estavam acima de suas posses mostrando voluntariedade (2º Co. 8: 1-9). Uma igreja deve manifestar superabundância, tanto na fé e na Palavra, como no saber e em todo cuidado, também no amor para com a Obra de Deus e para com os irmãos necessitados. O crente que não participa da Obra com suas ofertas, realmente não ama. E pobreza não é desculpa. Ao chegar a Corinto, permanece ali por três meses (Atos 20: 2-3), Esse tempo, aparentemente longo para uma visita de fortalecimento, foi necessário para colocar em ordem as muitas coisas pendentes e julgar todas as questões (2º Co. 13: 1). Disposto a voltar a Jerusalém para levar as ofertas levantadas por ele aos pobres da Judéia, decide passar novamente pela Macedônia, Trôade e Ásia, onde se reuniu com os presbíteros de Éfeso.
Em Atos 20: 7, temos a primeira menção do domingo como dia separado para reunião dos crentes (1º Co. 16: 2) e celebração da Ceia do Senhor. É evidente a relação entre a comemoração da morte do Senhor e o dia de sua ressurreição, visto que a Ceia do Senhor tem por objetivo trazer à memória a morte e a ressurreição do Senhor. O uso do infinitivo no texto original indica que a reunião tinha o propósito de partir o pão. É importante ressaltar que o segundo partir do pão no verso 11 refere-se a uma refeição comum e não a celebração da Ceia do Senhor, por isso o uso de outra estrutura verbal no texto original. Certamente precisavam se alimentar, pois a reunião durou a noite toda. Também era uma boa oportunidade de comunhão entre os irmãos, como nos ensina os primeiros crentes de Jerusalém “tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração” (Atos 2: 46). A igreja precisa reviver esses momentos, os crentes precisam se conhecer melhor. Vivemos um tempo onde o individualismo reina, onde as amizades são apenas virtuais, onde não temos tempo de nos envolver com os irmãos, conhecer suas necessidades, exercer a misericórdia. “Porque nenhum de nós vive para si mesmo...” (Rm. 14: 7).
O valor e o amor às Escrituras estavam evidentes na igreja de Trôade, foi ali que na segunda viagem missionária Paulo recebeu a visão que o impeliu à Macedônia (Atos 16: 8-10), entrando na Europa pela primeira vez com o Evangelho. A tão famosa Tróia com seus heróis e deuses, agora recebe o Evangelho da graça de Deus, a semente germina e mostra seu fruto na sede pela Palavra de Deus. Até mesmo Êutico, que provavelmente trabalhara duro durante todo o dia, estava ali para ouvir a Palavra de Deus. Apesar de toda dificuldade, recebeu a bênção do Senhor. Simbolicamente podemos dizer que aquele que ama a Palavra do Senhor, jamais ficará na morte. Mas como disse o apóstolo Paulo por causa da indiferença dos coríntios em relação à Ceia e a Palavra do Senhor “Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes, e não poucos que dormem” (1º Co. 11: 30).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Paulo Enfrenta o Império da Idolatria

Atos 19: 23-40

“Congregai-vos e vinde; vós que escapastes das nações; nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas de madeira, e rogam a um deus que não pode salvar”. Isaías 45: 20.



Na segunda viagem missionária, Paulo desejou pregar na Ásia, contudo foi impedido pelo Espírito Santo e conduzido à Europa (Atos 16: 6). Agora, na terceira viagem missionária, Deus lhe abre a porta à Palavra. Precedido por Áquila e Priscila (Atos 18; 18, 19), encontra em Éfeso, principal cidade da Ásia Menor, uma grande oportunidade para pregação do Evangelho. Éfeso era uma cidade dominada pela idolatria e ocultismo (Atos 19: 19), sua economia dependia do forte comércio, pois era rota de passagem entre o Oriente e o Ocidente. Estava em Éfeso uma das sete maravilhas do mundo antigo, o templo da deusa Ártemis (enquanto que no texto original do Novo Testamento os deuses citados pertencem ao panteão grego, as nossas traduções utilizam os deuses do panteão latino (romano) equivalentes ao grego. Por isso, onde se diz Ártemis, “traduzem” por Diana; Zeus por Júpiter; Hermes por Mercúrio (Atos 14: 12) etc.). Esse magnífico templo era o orgulho da cidade e através dessa idolatria muitos enriqueciam, vendendo suas imagens religiosas, fazendo dessa atividade uma grande fonte de renda e trabalho (Atos 19: 25). É interessante como a idolatria sempre tem uma origem obscura, no caso dos efésios, acreditavam que a imagem da deusa tinha caído do céu (Atos 19; 35) e isso era suficiente para convencer a multidão que naquela pedra havia poder sobrenatural. Não é diferente a situação idólatra brasileira.
Algumas peculiaridades podem ser destacadas no trabalho missionário de Paulo em Éfeso: 1º O momento de iniciar o trabalho foi determinado explicitamente por Deus (Atos 16: 6); 2º O tempo de permanência em Éfeso foi maior do que em qualquer outra cidade (Atos 19: 8 10); 3º Milagres extraordinários foram realizados, o que nem sempre acontecia (Atos 19: 11); 4º Implantou-se uma escola bíblica (Atos 19: 9 10); 5º O Evangelho repercutiu por toda região ao ponto de abalar o legado de séculos da idolatria (Atos 19: 26); 6º Contra tudo que se podia esperar, Paulo teve apoio da elite romana representante na cidade (Atos 19: 31, 35). Apesar da extraordinária intervenção de Deus no ministério de Paulo em Éfeso, não foi fácil. Ele nos apresenta em passagens como Rm 16: 4; 1º Co. 15: 32 e 2º Co. 1: 8 que se não fora a misericórdia de Deus, ele teria morrido. Em muitos momentos sua vida esteve em risco ao ponto de em alguns momentos ele até se conformar com a morte. Mas a sua esperança cada vez se fortalecia, pois sabia em quem tinha crido. Em nenhuma outra cidade é tão enfatizado a importância do ensino da Palavra de Deus. Não poderemos combater idolatria criando idolatria disfarçada na igreja, não poderemos combater ocultismo criando rituais semelhantes na igreja, mas sim com a espada do Espírito que é a Palavra de Deus (Efésios 6: 17). Isso nos ensina que não poderemos combater a idolatria e ocultismo sem o ensino sistemático da Palavra de Deus, como disse Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8: 32). Ou também Paulo: “A fé vem por ouvir a pregação da Palavra de Cristo” (Rm. 10: 17).
Quanto maior a luta, maior a vitória. Em Éfeso, onde Paulo teve tribulação acima de suas forças, também teve um êxito que não houve semelhante em outro lugar. O Evangelho teve tamanha repercussão que igrejas foram fundadas num raio de até 160 km da cidade de Éfeso, podemos citar as outras seis igrejas mencionadas no livro do Apocalipse capítulos 2 e 3. Precisamos estar sempre alertas, pois mesmo que no passado se tenha ensinado muito a Palavra de Deus, o ensino precisa ser constante, visto que a operação do erro está sempre rondando, querendo entrar na igreja. Mesmo Paulo durante anos ter ensinado minuciosamente a Palavra de Deus em Éfeso, o falso ensino sempre precisava ainda ser combatido, a despeito disso Paulo roga a Timóteo que permaneça em Éfeso para admoestar a certas pessoas a fim de não ensinarem outra doutrina (1º Tm. 1: 3). Mesmo uma igreja nascida sobre sólidos fundamentos bíblicos, tendo recebido uma “overdose” de estudos bíblicos no início, pode vir a abandonar o primeiro amor e se não lembrarem onde caíram, se não se arrependerem e não voltarem a prática das primeiras obras, podem vir a deixar de existir como igreja, veja exemplo de Éfeso (Ap. 2: 1-7). Que Deus nos guarde disso!